05/04/2022

Rugas


Este livro ao início parece que poderia tratar-se sobre a velhice, ou abandono dos idosos pelos familiares, mas a meio damos a perceber que é sobre isso e muito mais, a velhice e a deterioração do “eu” que neste caso é com a doença de Alzheimer.

Desde a fabulosa capa que acaba por ser uma bela síntese do que se trata este livro, Inicia com Emílio, um idoso que já se começa a esquecer das coisas. Os filhos para aliviarem o cargo e possibilitarem condições a Emílio, acabam por o colocar num lar. Neste lar fica a conhecer Miguel, um idoso solitário e sem familiares mas ainda com as suas capacidades cognitivas integras e bem-disposto. De uma forma quase cómica mas amarga, fica a conhecer outros residentes nestes lares e as suas características e limitações; até de uma forma engraçada mostra os idosos e de seguida em poucas pranchas uma outra forma como eles se veem a eles próprios; acaba por ser uma forma inteligente de mostrar a realidade destas pessoas.

Miguel que divide o quarto com Emílio, é uma pessoa que acaba por se afeiçoar a este e quando ao inicio parece ser uma personagem oportunista e desinteressada com os outros, acaba no final mostrar tanta compaixão com Emílio que estando eles no rés-do-chão do lar, lugar onde os mais independentes e capacitados estão, vai com Emílio para o segundo piso do lar para cuidar dele, segundo piso este que é onde estão os mais debilitados e sem capacidades. Esta fase final acaba quando Emílio agrava a sua condição e esquece tudo, mas mesmo assim Miguel manteve-se ao seu lado. 

Curiosamente e tal como li em outros blogs, existe algo bonito embora amargo a apontar: O casal de Dolores que cuida do seu marido Modesto que já tem alzheimer em fase avançada. No início este casal estava no rés de chão do lar, mas quando Modesto se torna dependente total, é transferido para o segundo piso, mas a sua esposa ainda capaz, amor da sua vida, vai também para poder cuidar dele. Desde já salientar a forma bonita mas triste de quem não quer abandonar o seu amor, tornando-se um cuidador informal. Tal igual como Emílio e Miguel.

É uma história com alguns toques de comédia agridoce que acaba por ser triste por retratar a enfermidade da vida que é a velhice com todas as limitações e degradação do físico e do cognitivo e consecutivamente a morte. Como diz Miguel algures no livro: A velhice é uma piada de mau gosto. A nível gráfico é o estilo de Paco Roca, simples mas eficaz.


Titulo: Rugas
Autor: Paco Roca
ISBN: 9789896828912
Edição/Reimpressão 04-2022
Editor: Levoir
Idioma: Português
Dimensões: 177 x 245 x 8 mm
Encadernação: Capa dura
Páginas: 112

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